Não há como falar do Curso de Letras, sem citar o Professor Ruy do Carmo Póvoas.
O Eletracidade teve a honra de realizar uma entrevista com o professor e gostaria de agradecer sua atenção e colaboração. Como forma de homenagem, o resultado desta maravilhosa entrevista inaugura o espaço "História do Curso" neste blog:
ENTREVISTA REALIZADA COM
O PROFESSOR RUY DO CARMO PÓVOAS,
EM 28/05/2012, PELOS
ALUNOS DO I SEMESTRE DE LETRAS
Bárbara Freitas: Como nasceu o Curso de Letras? Como funcionava e onde
funcionava? Que lembranças o senhor tem dessa época?
Ruy Póvoas: Aos
70 (setenta) anos, muitos neurônios já vão sendo queimados, não é?! E a memória
vai ficando esmaecida... Mas o Curso de Letras surgiu na configuração da
Faculdade de Filosofia de Itabuna, na década de 1960. Eram Letras, Pedagogia e
Filosofia. No ensino das línguas estrangeiras, tínhamos até alemão, imagine.
Aí, coincidiu logo com a chegada da reforma e o Curso de Letras passou pela sua
primeira reforma profunda. Então, ele surgiu da compreensão que os homens e
mulheres daquele momento, daquela época, uns 50 (cinquenta) anos atrás, tiveram
para impulsionar o progresso da mentalidade e da cultura regional da época. A
intenção era arrancar a Região do ostracismo. Pela sua própria história
delineada ao longo do tempo, desde a sua formação, a Região sempre se caracterizou
como um espaço de violência, de individualismo. E era preciso mudar esse quadro
mental e cultural. Então, o sonho que embalava os pioneiros da FAFI era que ela
se voltasse para as coisas do espírito humano, para a cultura, visando contribuir
com a mudança da mentalidade regional. Também a ideia era a de oferecer
condições aos alunos de fazerem aqui os seus estudos, uma vez que a grande
maioria parava a carreira por falta de condição de ir a Salvador fazer
vestibular e continuar os estudos. Foi
assim que as coisas surgiram. E o Curso de Letras era um curso de formação
profissional, Licenciatura, e abarcava um quadro de disciplinas teóricas,
disciplinas práticas e disciplinas pedagógicas para formar o professor. O
objetivo era formar professor para atuar nas escolas chamadas, naquela época,
de 1.º e 2.º Grau. Antes disso, não havia como as pessoas se licenciarem na
região, e o Governo do Estado oferecia um curso acelerado chamado CADES. O
professor que já estava na rede, mas não tinha Licenciatura, ia fazer esse
bendito CADES e aí, eles passavam na frente dos outros professores porque tinham
CADES. Então, a Faculdade de Filosofia veio e transformou esse tempo,
transformou essa coisa. Quando eu comecei a ensinar, não pude entrar no Colégio
Estadual de Itabuna porque eu não tinha o curso da CADES. Depois começaram a
acontecer os concursos públicos. Aí, o quadro veio mudando, até que chegarmos
hoje a esta situação que nós presenciamos. Esta situação de que já não é
preciso ninguém sair daqui para fazer vestibular fora, até para as ciências
ditas "nobres", como Medicina e Matemática. Você tem hoje a
Universidade, anualmente, formando um contingente importante de novos
profissionais que preenchem necessariamente os quadros regionais de professores
nas escolas públicas, estaduais, municipais e, agora, até a federal, como o
IFBA. Voltando ao Curso de Letras, ele surgiu na cidade de Itabuna, no bojo de
uma instituição privada. Faculdade que foi sonhada por Amélia Amado e que funcionava
na Ação Fraternal. Com o passar do tempo, esse modelo faliu. Não havia mais
como sustentar a instituição.
BF: O que representava ser professor na época
da FAFI? Há mudanças na forma de perceber e valorizar esse profissional?
RP: Ser
professor da faculdade no Curso de Economia, de Filosofia e de Direito era como
estar em destaque na elite cultural da Região. Não era para qualquer professor
ou professora, porque o acesso não era por concurso. Um titular da disciplina
informava ao departamento que havia um aluno promissor em final de curso. E
esse aluno era convidado para ser monitor daquele professor, então, passava ali
um ano monitorando. A atividade do monitor era a de levar caderneta, tomar
conta da turma, recolher os trabalhos. Quando esse monitor mostrava
proficiência, um titular o levava para o diretor do departamento e ele era
transformado em auxiliar de ensino, durante um ano, sob a observação rigorosa
dos demais professores. No fim do ano, o departamento se reunia para avaliar o
trabalho daquele auxiliar de ensino, com depoimentos dos estudantes,
depoimentos dos professores que compunham o departamento. E se avaliação fosse
positiva, ele teria outra oportunidade de continuar por mais um ano. Então, só
era filtrada a fina flor, não econômica, mas da intelectualidade, da capacidade
de ser professor, da sua própria destinação e escolha. Esses eram os
parâmetros. Então, os professores eram verdadeiras sumidades.
BF: E o senhor se lembra de nomes de professores,
do desempenho deles... e de algum que tenha marcado a sua carreira?
RP: Quase todos
marcaram a minha carreira. Margarida Fahel, da Literatura Brasileira; Maria de
Lourdes Netto Simões, da Literatura Portuguesa; Rivaldo Baleeiro, da
Linguística; Manuel Simeão da Silva, da Língua Portuguesa e da Filologia; Litza
Modesto Câmera, da Didática. Não há como esquecer esses professores. Flávio
Simões, da Sociologia e da História... Não há como esquecer.
BF – Ser professor naquela época e ser professor
hoje implica revisão de alguns valores?
RP: Primeiro,
eram pessoas competentíssimas e preparadas. E não eram professores improvisados.
Era professores que estudavam e que tinham um interesse sobre a estudantada Um
interesse de que o aluno saísse da sua mão o melhor possível. O professor
ficava até agoniado, quando uma turma fracassava. Uma turma não podia fracassar.
Não podia, de maneira nenhuma! E as coisas eram resolvidas com esforço e empenho. Os professores levavam
seus alunos para sua casa pra fazer reforço. Traziam suas sacolas de livros
para a sala de aula, porque a biblioteca era paupérrima. Eles andavam cheios de
sacolas de livros, para que seus alunos pesquisassem. Então, havia um interesse
com o estudante, o destino do estudante, o destino da comunidade como um todo,
o destino da região como um todo. Isso fazia parte do ideário de quem era
professor. O professor não se preocupava apenas em dar sua aula e ir embora
para casa, ele se sentia compromissado com o destino das pessoas e da região.
Esse era o grande diferencial. E isso não estava por conta do salário dele, era
independente que o salário fosse bom ou ruim, se atrasava ou não, e o Estado
atrasava muito. Mas isso não pesava na definição do que o professor tomava como
prioridade. Ele era professor e nas mãos dele estava o destino da Região. As
pessoas se realizavam ensinando. Os problemas ficavam na porta da sala e ele
entrava sem problemas na sala de aula. Por isso os professores eram exigentes,
cobradores. Não alisavam, não passavam a mão pela cabeça de maneira alguma. Os
cursos eram seriados e você perdia o ano mesmo. Por causa de uma disciplina, ia
repetir o ano todo. As coisas foram se modernizando e hoje, se passou a repetir
apenas a disciplina perdida, não é assim?
BF: E quanto à relação aluno-professor?
Ruy: A escala
de valores era outra, nem melhor, nem pior, a escala era outra. Então, se o
aluno chegasse à sala de aula e estivesse assim, meio macambúzio, o professor
ia perguntar o que estava acontecendo com ele, no intervalo. Chegava e dizia
assim: "No intervalo, eu quero falar com você!". Iam lá paro
reservado e o professor se interessava e questionava: o que é que estava
acontecendo, o que estava faltando. Procurava
saber em que podia ajudar. Então, o professor, mesmo que fosse um estranho, era
uma mão amiga. Eu me lembro de que, para eu me mudar de Ilhéus pra Itabuna, eu
não tinha dinheiro para alugar uma casa e pagar a quantia antecipada, foi um
professor que me emprestou na hora. Então, era assim, era uma coisa amigável, de
confiança. Você precisava de um atestado de idoneidade e quem dava era o
professor: "Atesto, para os devidos fins, que conheço fulano de tal de
conduta tal..." E havia em suas mãos um documento que você podia
apresentar em qualquer lugar do Brasil. Porque quem dava aquele documento era
um professor e não era qualquer um que se tornava professor.
BF: Agora, o senhor falou que os professores até mesmo levavam os alunos
pra estudarem na casa deles, como era isso na época da ditadura? O senhor era
líder estudantil...
Ruy: Eu era líder estudantil e fui
perseguido. Eu me lembro bem de Litza Modesto Câmera, que não podia falar em
sala de aula nos autores considerados
comunistas. Então, nós íamos pra casa dela e não podia ir todo mundo de vez. Chegava
um; depois, outro; depois, mais outro. Ela fechava as janelas, corria as
cortinas, acendia a luz e ia nos dar aula dessas coisas que não podiam ser
faladas em sala de aula. Depois, saía de um a um, para ninguém ver o grupo de estudantes saindo da casa dela, senão ela
seria presa. Flávio Simões estava em casa de pijama, quando bateram à porta. Ele
foi abrir e a polícia federal já foi pegando e jogando o camburão e desapareceu
com ele. Aí, nós fomos pra roça dele, onde havia livros que não podiam ser expostos.
Colocamos os livros em sacos plásticos, amarramos e enterramos, para quando a
polícia chegasse à fazenda, não encontrasse nenhum livro considerado subversivo
e não tivesse provas contra ele. Então, eu vivi esse tempo. E em cada sala, havia
um militar matriculado. Era o olheiro.
BF: E que tipo de pressão o senhor sofreu nessa época?
Ruy: Como eu não era filiado a nenhum
partido político, a coisa comigo foi mais leve. Então, por exemplo, a minha
correspondência, eu só recebia aberta. Qualquer pessoa que me escrevesse, a
correspondência era aberta no correio. Não sei quem lia, eu sei que chegava
aberta. Mas como eu não tinha filiação a nenhum partido político, então não
encontraram muita coisa para me perseguir. A coisa mais forte foi uma namorada minha,
que era secretária da Faculdade de Sociologia e Política de Ilhéus. A polícia
federal fechou a faculdade, os professores foram interrogados e ela fugiu. Na
fuga, eu descobri que ela era filiada ao Partido Comunista.
BF: E a luta pela estadualização da UESC, a atual agora, o senhor
participou? Como foi e como o senhor caracteriza a participação dos alunos de
Letras?
RP: Eu acabo de
escrever um texto e a professora Dinalva Melo acaba de escrever outro. Os
textos, reunidos sob o título A
trajetória do ensino superior do sul da Bahia, ainda não foi publicados. A
gente conta essa saga da implantação e do desenvolvimento do ensino superior no
sul da Bahia. Havia desde o começo um sonho acalentado de se criar a
universidade, mas faltava força política para isso acontecer, do ponto de vista
federal ou estadual. O Governo Federal não estava interessado, naquela época,
em implantar uma universidade na nossa Região. E nós não tínhamos cacife
político, nossos líderes políticos não tinham chão para isso. Era uma liderança
muito mais localizada e sua voz não tinha eco no Planalto. Então, várias ideias
surgiram, a exemplo, “ceplaquizar” a FESPI. O que seria “ceplaquizar” a FESPI? Seria
a CEPLAC englobar a FESPI. Havia, como até hoje há, um digladiar de forças
políticas na Região. E essas forças políticas não falavam um idioma comum, não
havia entendimento entre elas Tanto
assim, que na ocasião da criação da universidade, para implantá-la, foi preciso
arranjar um terreno no meio da estrada, entre Ilhéus e Itabuna, para que a
universidade não ficasse configurada como ilheense ou como itabunense. Surgiu
Manuel Nabuco, que era fazendeiro, dono dessa terra, e a família Nabuco doou o território
para implantação do projeto, e resolveu-se a agonia bairrista. Nem é Ilhéus,
nem é Itabuna: é Rodovia Ilhéus-Itabuna. Então, imagine você a mentalidade que existia;
a criação de um complexo universitário ser emperrado para poder decidir em que
polo ela ficaria. Essa história também se liga à história do país, de Tancredo
Neves, de Collor, de Valdir Pires, de Ulisses Guimarães. Essa história se
entremeia com isso tudo. É um entrelaço disso tudo. Quando Ulisses Guimarães
decidiu se lançar candidato a presidente do Brasil, convidou Valdir Pires para
ser o vice, mas Valdir Pires era governador da Bahia. Então, Valdir Pires renunciou
ao Governo da Bahia e saiu candidato com Ulisses Guimarães. E eles perderam.
Nilo Coelho ficou no Governo da Bahia. E o professor nunca teve tanto aumento
como no governo de Nilo Coelho. Foi o único governador que deu aumento
substancial aos professores da Bahia. Mas Nilo Coelho representava a elite
econômica, os grandes fazendeiros. E as esquerdas estavam tomando fôlego e se
puseram contra Nilo Coelho. Valdir Pires, que era da esquerda, teve que fazer
coligação com Nilo Coelho, na ocasião que ele foi candidato a governador da
Bahia, para poder ganhar a eleição. Então, ele se aliou à direita. Imagine as
consequências disso depois. Valdir Pires, que estava capitaneando as
diligências para estadualizar a FESPI, saiu do Governo da Bahia, e as ações
para estadualização da FESPI pararam. Mas aí, a FESPI já era outra coisa, havia
outra mentalidade e estudantes, professores e funcionários se levantaram em
guerra. Fizemos uma greve de sete meses. Ou a FESPI seria estadualizada, ou não
voltaríamos: professores, alunos e funcionários.
BF: E a participação dos alunos de Letras, particularmente?
RP: Olhe, não
havia assim, o destaque dos alunos de Letras, especificamente. Os alunos participaram. Não havia, assim,
"o curso tal estava alavancando o processo". Participavam alunos de
todos os cursos. Claro que havia aqueles que foram para casa e só voltaram,
quando a greve terminou, pois em toda greve é assim. As lideranças de
estudantes que estavam ligados aos PC e ao PC do B apoiaram as ações. Eles
tiveram uma participação fundamental.
BF: E, aqui na UESC, as conquistas mais
significativas para o Curso de Letras, quais foram?
RP: Com a
estadualização, o Curso de Letras subiu no status. Porque ele não era mais um curso
oferecido por uma federação de escolas particulares. Ele era um curso oferecido
por uma universidade. Então, o status
dele passou a ser outro e é esse status
em que ele permanedce até hoje. Antes ele era só Curso de Letras, depois se
transformou em Curso de Letras e Artes. O leque de oferta se ampliou com a
renovação da grade curricular, por força dos vários acontecimentos pelos quais
o país vinha passando. É preciso lembrar que não se pode isolar o Curso de
Letras da UESC e estudá-lo separadamente dos eventos nacionais, regionais,
estaduais. Ele está no bojo dessa procissão. Muitas vezes, as coisas não foram
promovidas por ele, era uma onda nacional em que ele ia no meio. Uma das
grandes conquistas do Curso de Letras, no tempo da federação, foi a de promover
o Encontro Regional de Professores de
Língua Portuguesa. Toda a Região era chamada de dois em dois anos para esse
encontro, onde eram discutidos os problemas do Curso de Letras, sua grade
curricular, as tecnologias de ponta do ensino das Letras, os quadros
teórico-metodológicos que estavam em voga no exterior e no país. Então, havia
uma efervescência muito grande no Curso de Letras, no tempo da federação. Ele
era muito mais atuante, em termos de efervescência, do que hoje. Havia um
interesse em chamar a Região para dentro da UESC, para discutir os graves problemas
no ensino da Língua Portuguesa. Língua Portuguesa era o carro-chefe do Departamento
de Letras. Era essa disciplina que trabalhava com os conteúdos específicos, mas
também com as ciências da linguagem, com as ciências pedagógicas, com as
ciências didáticas, para poder formar o professor.
BF: Então, o que a Língua Portuguesa significa para o senhor, como
contista, ensaísta, poeta?
RP: Em primeiro
lugar, é a língua que me foi dada, eu não optei por ela. Eu nasci num lar onde
as pessoas falavam português, então, inevitavelmente, eu sou um cidadão da
comunidade de Língua Portuguesa. E sempre tive a minha língua, o meu idioma,
como algo que faz parte de mim, é muito natural em mim, lidar com ele. Lido com
ele com facilidade. Não sei de onde vem essa facilidade, mas é uma coisa minha.
De saber dizer o que sei, o que penso, o que sinto em Língua Portuguesa. Para
mim, e o instrumento com o qual eu lido facilmente. Nunca foi difícil, para
mim, lidar com ele. Nunca tive barreira linguística, eu sou capaz de lidar com
a língua culta do mesmo jeito que lido com as outras variedades linguísticas.
Leio uma bula de remédio com a mesma facilidade com que leio ler uma receita de
bolo. Então, escrever um poema, para mim, é muito fácil, só que não acontece na
hora que eu quero. Porque como vem de outra área, às vezes vem na hora que eu
nem quero e nem posso, mas tenho que largar tudo para escrever.
BF – Então, aqui falamos de inspiração?!
RP: É, vem de
lá. Vem de uma área que eu não sei bem qual é, mas vem de lá. Então, quando
essa coisa vem de lá, tem à minha disposição o artefato linguístico. Se eu não
soubesse lidar com ele, essa inspiração vinha e evaporava, não produzia nada,
mas como eu tenho à minha disposição um artefato linguístico com o qual eu sei
trabalhar, então essa inspiração lembra o ato de fazer tricô. Há pessoas que
tem uma dificuldade enorme para extravasar o que está pensando, o que está
sentindo, quanto mais o que sabe. É um dos fundamentos para você ser professor,
você saber dizer o que sabe. Então, o Curso de Letras tem que trabalhar por
isso. Propiciar aos estudantes a possibilidade de se tornarem poliglotas em
português. Ele, o estudante, precisa aprender a lidar com a língua culta, a
língua literária, mesmo que ele não seja artista. Lidar com a língua da
ciência, mas a língua do povo também.
BF: Voltando ao Curso de Letras, o que o senhor acha do curso de Letras
oferecido pela UESC pelo sistema EAD? O senhor, na década de 90, tentou implantá-lo,
é verdade?
RP: Sim, é
verdade. Foi impossível implantá-lo aqui! Eu fui pra Brasília fazer especialização
em EAD e voltei de lá com um projeto. Quando eu apresentei o projeto ao diretor
geral da época, ele disse que não iria implantá-lo. Na opinião dele, se o sistema presencial ainda
não estava resolvido, quanto mais o de EAD. Ainda bem que as coisas foram
superadas e a EAD está aí, implantado. Isso é o que importa, é uma tecnologia
interessante e quando aplicada com eficiência, com qualidade, com seriedade,
ela produz resultados vantajosos. Outro dia eu fui à formatura de um Curso de
Letras em EAD, não oferecido pela UESC, mas por uma outra instituição do país,
e eu saí de lá morto de pena das pessoas que estavam se formando. Tudo não
passava de um "faz de conta".
BF: As pessoas dizem que não é a mesma coisa que frequentar a universidade todos os dias...
RP: É até melhor,
se for bem feito. Eu estudei com uma das grandes autoridades em EAD, que era um
venezuelano, na década de 90, chamado Miguel Casas Armengol. E a Universidade
de Brasília promoveu um evento em EAD que trouxe gente de todo o mundo. O
sistema de ensino-aprendizagem em EAD no Japão é admirável: alta tecnologia,
fartura de instrumentos, condições excelentes oferecidas ao estudante. Chama à
atenção a facilidade que o estudante tem de dispor da alta tecnologia. Aí,
nesses termos, EAD funciona. Ainda: EAD tem que funcionar para pessoas com
responsabilidade de trabalho e de família, não é para gente que está de cara
pra cima, que não tem nada pra fazer e, por isso, vai fazer EAD. Para esses,
EAD não funciona, de maneira alguma. É pessoa com responsabilidade de trabalho
e de família a quem é oferecido um plano, um planejamento e alta tecnologia. Aí,
é uma maravilha! Eu voltei de Brasília, na época, cheio de intuições e
vontades, mas a direção da universidade, na época, matou tudo isso. Essa nova
tecnologia de ensino não é significa que se retira o professor e entrega-se o
estudante às máquinas. Não é isso que é EAD; é uma coisa completamente
diferente. O professor tem que estar não presente em sala de aula, mas presente
no processo. É ele quem sabe do processo, é ele que coordena o processo. E há
encontros presenciais, só que eles não são diários. Há um planejamento dos
encontros presenciais, que podem funcionar em qualquer canto, desde que seja um
lugar, onde a tecnologia seja implantada. Agora, não dá pra implantar EAD sem
tecnologia, pois seria apenas um "faz de conta".
BF: O que é necessário ao aluno de Letras hoje para atuar com eficiência
no seu curso? Que conselhos o senhor nos daria?
Ruy: Eu aprendi
que, se conselho fosse bom, ninguém dava; vendia. Mas eu poderia sinalizar
algumas questões: fazer qualquer curso é ter clareza de compromissos com seu
tempo, consigo mesmo. Se esse compromisso não estiver claro na cabeça da
pessoa, é apenas uma etapa que se vai passar por cima, porque todo mundo se
forma, é preciso ser formado, é preciso ter um diploma para ter um emprego. Há
algo mais profundo que deve sobrepujar esse ideário. Algo que se relaciona a um
compromisso consigo mesmo, com o outro, com a vida, com o universo, com a
sociedade do seu tempo. Porque estar matriculado, ter oportunidade de estudar
no Curso de Letras, é coisa de pessoa privilegiada. Você vai lidar com a fina
flor do conhecimento humano, a literatura, a linguagem. E pela linguagem, você
pode conquistar uma pessoa; pela linguagem; você pode conquistar uma nação,
pela linguagem; você pode conquistar o povo; pela linguagem você pode expressar
a cultura do seu povo e toda a história dele. Nenhum outro instrumento tem
tamanha capacidade. E ela, às vezes, não é encarada, não é vista com este poder
que tem. Ela é desprezada, ela é menosprezada. As pessoas não recebem preparo
para lidar com esse grande artefato que pode transformar o mundo. Nós transformamos
o mundo pela linguagem. Pela linguagem, eu lhe digo quem sou eu; pela linguagem,
você me diz o que você sente; pela linguagem, eu retrato e perpetuo a memória;
pela linguagem, eu reforço minha identidade; pela linguagem, eu registro; pela
linguagem eu crio o mundo de amanhã.
BF: O senhor é também africanista. Como
estabelecer a relação entre o estudo da cultura africana e o curso de Letras?
RP: Em primeiro
lugar, é preciso lembrar que nós estamos numa região do Baixo Sul da Bahia,
onde essas coisas africanas ou eram vistas como folclore, ou eram destacadas
com verdadeiras ojerizas, porque eram coisas do demônio, do diabo. E isso não
fazia parte dos estudos. No máximo, em Língua Portuguesa IV, que se estudava,
com base em Serafim Silva Neto, a influência africana no português do Brasil. Porque
o negro sempre foi considerado coadjuvante; nunca protagonista na história de
formação da cultura brasileira. Quando eu me tornei titular de Língua
Portuguesa, na disciplina chamada Português
do Brasil, comecei a fazer pesquisa com os alunos, soltar os alunos a
aplicar questionários em vários segmentos da sociedade local, ouvir médico,
advogado, juiz, promotor, professor, artista, operário, lixeiro, preto, branco,
gente velha, gente adulta, gente nova, para perceber como é que as pessoas
sentiam isto e que espécie de linguagem elas manejavam. Passei anos fazendo isso,
depois fui fazer mestrado em Letras no Rio de Janeiro, na UFRJ, e o meu objeto
continuou sendo a Língua Portuguesa. E então, eu tinha um interesse todo
particular nessa Língua Portuguesa falada pelas comunidades religiosas
afrodescendentes. Nas primeiras aulas, o nosso professor, o famoso Celso Cunha,
ao fazer uns comentários sobre a língua falada no Brasil, disse que, no Brasil,
não havia mais dialetos africanos, que eles tinham desaparecido. Aí, eu me
levantei e disse: "Professor, isso não é verdade. Eu sou falante de um
dialeto africano, a minha comunidade fala esse dialeto." Ele ouviu, era
muito sisudo, de formação europeia, era brasileiro, mas formado na Europa,
disse: "O senhor seria capaz de ir ao meu curso de doutorado fazer uma
explanação sobre isso?" Afirmei que iria. Ele marcou o dia, eu preparei a
exposição e me saí muito bem. Terminou ele se afeiçoando ao que eu fazia. Ele
era um professor que oferecia certa relutância em aceitar orientação de teses e
dissertações. Mas a minha aceitou sem problemas. E foi muito mais além: quando
eu terminei minha dissertação, ele levou à Editora José Olympio, pra ser
editado em livro, com apresentação dele.
.BF:
E sobre a importância da renovação do currículo de Letras?
RP: O currículo
é um desenho feito com a mentalidade da época para impulsionar os estudos. Os
humanos, porém, não são seres parados no tempo e no espaço porque, como diz
Cícero, "com um tempo, todas as coisas mudam". Então, há um desenho
que vai cobrir uma determinada época. Quando aquela época passa, aquele desenho
se torna insustentável, porque os interesses passam a ser outros. Os objetivos
já são outros, a humanidade mudou, o mundo mudou. Então, essas coisas têm que
estar sendo sempre atualizadas, as pessoas sempre se reciclando, para que a gente
não perca a visão do mundo como um todo. Não fiquemos olhando para o nosso
próprio umbigo a vida toda, fazendo aquela coisa mesma, e imaginando que aquilo
que projetamos é o que soluciona o problema da humanidade ou da região. Então,
uma grade curricular, um currículo são desenhados para determinada época. Depois
precisam ser renovados, precisam ser arejados, oxigenados. Então, o currículo
antigo do Curso de Letras, maravilha para aquela época, hoje, se você implantar
aquele currículo, ele vai dar em nada. Porque aquela época passou, a
mentalidade mudou, o interesse mudou, o mundo mudou. Então, você imagine: um
currículo implantado antes do celular, antes de internete. Quando as inovações aparecem,
a humanidade muda e aí, o que você tem que fazer com o currículo? Mudar também,
senão você não acompanha o progresso da humanidade, as conquistas tecnológicas,
as novas maneiras de viver, as novas escalas de valores. Senão, você corre o
risco de formar professores para ensinar no passado. Ao contrário: o professor
deve ter uma abertura de visão para o futuro. E entender sempre que, com um
tempo, todas as coisas mudam. O que eu estou delineando aqui, é provisório
porque tudo, no humano, é provisório. O humano é, fundamentalmente, marcado
pela provisoriedade. Tudo nele é provisório, até a existência. Ninguém sabe se eu,
ao me levantar daqui, terei um colapso cardíaco e cairei morto. Porque tudo em
mim, como em vocês, é provisório.
BF: Nós acreditamos que os professores devem deixar um legado para os
seus alunos e para as gerações futuras. O que o senhor acredita que deixa como
legado para as gerações futuras?
RP: Primeiro, o
espírito de resistência; é preciso resistir. É preciso resistir aos donos do
poder, aos donos das ideias, àqueles que querem ser senhores do chão que a
gente pisa e do ar que a gente respira. É preciso estar sempre alerta, noite e
dia. Esse espírito de resistência, se você quer construir para o futuro, você
tem que resistir à soberba do passado. Às ideologias que fomentam as ideias.
Como se tudo tivesse que ser feito e virado pedra para toda a eternidade. E com
o humano, as coisas não são assim. Então, é necessário resistir, para que o
mundo mude. Seja estudante, seja professor, jovem, adulto, velho, mas é preciso
estar sempre nas trincheiras da resistência. De que resistência estou falando?
Não é a resistência contra o novo, é a resistência contra os donos do poder,
porque se você facilitar, eles medem a quantidade de oxigênio que você tem de
respirar; eles medem o pedacinho de chão que você tem que pisar. É necessário a
gente deixar como legado essa resistência. O segundo legado é ensinar. Compreender
que ensinar é coisa séria. É através do ensino que você constrói o futuro. No
magistério, mesmo que você já esteja morto há 50 anos, o que você tenha feito
de bom ainda estará vigorando nas escolas do futuro. E o que você fizer de mau
também. Então, o professor é o profissional que constrói o futuro. Todos os
ramos do conhecimento passam primeiro pela mão do professor. É o professor quem
forja a geração que vai substituí-lo. Ele é forjador de geração.
Consequentemente, forjador de caráter. Então, professor que não tem formação,
caráter, não é formado, ele está estragando o futuro da sua terra, daqueles que
vão lhe suceder. Então, tem que ser pessoa de caráter, firme, ter compreensão
do universo e da vida, valorizar o fenômeno humano. Tem que valorizar o ser
humano e investir nele, fundamentalmente, o resto é complemento.
BF: Em relação ao status do
Curso de Letras a que o senhor se referiu, normalmente, o Curso de Letras é
visto como segunda opção para aqueles que não conseguiram passar em cursos com
mais prestígio social. As pessoas entram para o Curso de Letras, a fim de terem
um status, para refrescarem o ego,
"eu tenho um curso, eu tenho um diploma".
RP: Isso não é nenhuma novidade. Em
nossa região, isso é um fato assentado. Da onde vem isso? Vem do imaginário
regional que ainda é colonial. No tempo do Brasil colônia, se a família tinha
dois filhos, um ia ser padre, que era um dos poderes, o outro ia ser advogado.
Então, até hoje, você tem um saber que é estigmatizado como segunda categoria. E
um outro, a que são atribuídos conhecimentos de primeiro quilate, como o caso
de ser médico, ser advogado. Isto está atrelado ao econômico, às profissões rentáveis.
Então, isto é da mentalidade. E mentalidade está num nível chamado imaginário.
Você tem que mexer com o imaginário, é lá onde as cobras dormem. É por isso que
tem que se estudar Bachelard e Durand para se fundamentar teoricamente, para
saber lidar com o imaginário. Quando se altera o imaginário, as coisas todas
mudam, porque você muda a mentalidade. Mas muitas coisas já foram afetadas. Um
exemplo: quando se implantou a universidade no meio do caminho, acabou-se a briga
entre Ilhéus e Itabuna. Antes, as populações dessas cidades mantinham uma
ojeriza mútua. Quando havia uma partida de futebol entre os times das duas
cidades, havia morte. A coisa era lavada com sangue porque essas duas
comunidades chegavam mesmo a se odiar. Hoje, esse ódio desapareceu e quem
transformou isso foi a universidade. A educação é vetor de transformação.
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